Junião
Os erros dos homens são tão infinitos quanto a própria sabedoria que julgam possuir. Principalmente no quesito religiosidade. Chega ser inacreditável em casos diversos a complexidade absurda e desnecessária que criam em torno do que chamam de "poderoso Deus". Chega ser inacreditável em casos múltiplos a facilidade que tem para confundir suas próprias mentes em busca de caminhos tão óbvios e explícitos. A simplicidade é sempre ofuscada por aqueles que não a conhecem como deveriam e, com isso, a fé se torna um estúpido e inútil artifício criador de cegos arrogantes, donos de uma verdade que não possuem e jamais possuirão...
Lembro-me bem da triste história daquela mulher, uma das mais "beatas" de todas as que eu já havia visto. E tão pouco pude fazer por aquela equivocada alma enquanto esteve entre os vivos. Não há forma de auxiliar quem não quer de forma alguma ser auxiliado. Principalmente os que não aceitam intervenção pois a total falta de humildade lhes dão a triste certeza de não precisarem. Além do mais minha tarefa não é a de auxiliar almas desatentas, e sim somente as conduzir exatamente para onde não imaginavam e não gostariam de ir...
Lembro-me dos médicos tentando insistentemente salvá-la. Mas, por mais que "homens" façam, não há como adiar a hora de cada um. E essa famosa "hora" é repleta de desapercebidos direcionamentos pré-estabelecidos por cada um em outros lugares. São os ecos dos gritos dados em vida que, por mais que se atrasem, sempre encontram seu real dono emitente...
Pouco após a última batida daquele coração lá estava ela, sentada ao fim de uma pequena escada de poucos degraus mal iluminados envoltos por intensa escuridão, onde eu mesmo a deixara. Seus pensamentos fervilhavam totalmente confusos, situação absolutamente normal diante dos estranhos fatos. A princípio as passagens são sempre de dificílimo entendimento. A compreensão demora a vir. A pobre gritou por socorro algumas vezes, sem obter resposta. Estava imóvel por não conseguir ver segurança para nenhum passo. Nem para cima, tampouco para baixo. Para cima as sombras assustadoras, para os lados o escuro sem fim e para baixo o negro medo. A sensação de estar rodeada por nada e flutuando no desconhecido a amedrontava demais, porém pouco havia a ser feito além de esperar. Posicionei-me no meu tradicional oculto lugar e fiquei no aguardo do que tanto já havia presenciado. Algum tempo depois uma pequena e fraca luz surgiu num próximo horizonte inexistente. Dessa luz uma voz de timbre calmo ecoou pelo breu:
- Não tenha medo... Tudo lhe será devidamente explicado em detalhes...
- Onde estou? O que aconteceu? - atropelou-se a mulher na tentativa de entender sua situação com clássicas perguntas óbvias.
- Você morreu! Mas não se apavore, está tudo bem agora. Não existe dúvida que persista por muito tempo e o tempo para todas as explicações é o que você mais tem aqui nesse lugar. - continuou a enigmática aparição de indefinida forma, na tentativa de acalmar a inconformada recém chegada.
- Se isso for alguma brincadeira de péssimo gosto eu ordeno que parem agora mesmo! Sou extremamente religiosa, muito praticante e sei que o caminho para o céu não é assim! - gritou a beata em tom ameaça para quem nem ao menos sabia o que era.
- Muito religiosa e sabe exatamente qual é o caminho para o céu... Não acha que tais palavras soam como saber demais sem saber nada, amiga? O quê a fazia acreditar tanto que o céu seria realmente seu destino merecido? - continuou a voz com clara e proposital leve ironia, usada também em outros casos parecidos.
- Mas, diante de tamanha convicção e certeza tão exata, não há mais nada que eu possa fazer aqui. Fique com Deus, religiosa extremamente praticante... Fique com Deus, como quer que você o conceba em sua mente. - concluiu com a mesma calma.
Em seguida a fraca luz no próximo horizonte se apagou e um silêncio ensurdecedor envolveu novamente o breu. Com isso a pequena escada mal iluminada pareceu ainda mais flutuante no nada que antes. Como um túmulo em forma de barco, numa noite sem lua nem estrelas em meio a um mar sem água.
O tempo não é o mesmo em todos os planos e os relógios nada mais são que tolos objetos que dão somente aos homens em seus mundinhos ilusórios a hipócrita sensação de domínio em certas situações. Por tal ainda apego a vida material ela não teve a menor noção de quanto tempo havia se passado até que pedisse novamente ajuda. Bem mais desesperada dessa vez, diante da solidão constrangedora na qual fora deixada para pensar. Após um "tempo" vendo sua inexistente força e suposto poder desaparecerem como água escorrendo pelas mãos, ela gritou por socorro; em clássico e lacrimejante tom de "por favor". É triste, mas ao mesmo tempo engraçado assistir como bravos homens se transformam em mansos cordeiros quando necessitam enfrentar suas reais múltiplas fragilidades, sem o poder material como aliado...
- Não pode ser... - disse ela quase que só para si mesma com o rosto lavado por lágrimas.
- Eu segui tudo que me foi passado e ensinado muito mais que à risca desde criança... Eu fui batizada e comunguei pela primeira vez de acordo com todas as regras da igreja... Eu fui crismada e continuei a frequentar constantemente missas, terços, novenas e demais eventos religiosos com empenho máximo... Eu cobri meu corpo e enfeitei também minha casa toda com imagens santificadas e adornos divinos... Eu fui líder de comunidade, apeguei-me e fiz tudo certo, portanto, se morri mesmo, Deus não pode ter me abandonado aqui nesse inexplicável ponto sem luz, não é correto nem justo... - continuou ela em voz mais alta, já quase convencida do seu falecimento pela situação óbvia.
E eis que, em meio às lamúrias da pobre equivocada, a voz voltou a tentar auxiliar:
- Você cita tais feitos em vida como se estivesse agora cobrando favores de Deus por uma postura religiosa de desnecessárias proporções...
- Eu não sei quem é o senhor, mas obrigado por ter voltado a falar comigo. Preciso de ajuda pois não sei o que fazer aqui. - interrompeu a morta, bem mais educada nessa nova chance.
- Fico feliz pela mudança no tom da sua voz. Talvez agora possamos nos entender melhor. A propósito, Deus não te abandonou. Não cometa ainda mais equívocos envolvendo valores e o abençoado nome do criador, pois ele a ama mais que possa sonhar. Você sim está sendo incorreta e injusta. - prosseguiu o eco.
- Então onde ele está? Por quê não veio ao meu encontro? Eu o segui na plenitude e fiz das suas ordens minha vida toda. - atropelou-se novamente a pobre.
- Não! Você está enganadíssima quanto a isso também. Seguiu na verdade ensinamentos e ordens somente de "homens". E homens erram muito mais que acertam... Além do que não se pode servir a dois senhores. E você, por livre arbítrio, optou pelos senhores que fazem da fé apenas um grande e rentabilíssimo negócio terreno, repleto de interesses pessoais movidos por dinheiro. Você jamais ponderou e comparou com inteligência os rumos a ti impostos com os ensinamentos de simplicidade máxima deixados pelo próprio Cristo. Por tal afastou-se tanto deles sem perceber. A fé verdadeira, amiga, não necessita de intermediários... Seria o mesmo que pedir a um estranho para amar seu pai ou seu filho por você... Seria o mesmo que tentar quantificar e explicar com teorias o inquantificável amor puro... - intercedeu a determinada voz com a luz voltando gradativamente a brilhar, cada vez mais forte e mais próxima.
- Mas a Bíblia Sagrada, a qual li centenas de vezes e conheço do começo ao fim, sempre ensinou e mostrou que...
- A Bíblia Sagrada... - interrompeu novamente a voz de forma clássica, antes que a mulher perdesse ainda mais seu tempo com argumentos levianos, desencontrados e pouco válidos ali na situação.
- A Bíblia é somente um belo livro extremamente metafórico e, com isso, de interpretação particular igualmente extrema. Além do que foi escrita por homens e direcionada só aos homens, de acordo com necessárias adaptações a cada momento de interesse no que vocês chamam de evolução. Ela, nem de longe, é uma cartilha imparcial de como viver corretamente, tampouco um mapa que indica o caminho para o tão sonhado paraíso... A pureza verdadeira do seu coração sim é o determinante fator de direção rumo ao Deus único. Palavras belas não salvam almas, amiga. Atitudes sim. Tanto que a própria vida em si é o mais inteligente de todos os livros, porém pouquíssimo útil para os incontáveis que não sabem... "ler".
Diante do perturbado silêncio da mulher seu enigmático interlocutor continuou:
- Você realmente sempre seguiu à risca todas as inúmeras e desnecessárias regras impostas pelas instituições religiosas, participou de milhares de ritos e cultos, ajoelhou-se por anos a fio diante de altares pomposos nos imensos templos e demais cerimonias teatrais; mas tanta complexidade a tornou somente uma chique escrava dessas inúteis próprias regras. Deus e seu insubstituível filho nos pedem apenas para que amemos o próximo como a nós mesmos e que sejamos "bons por dentro". Só isso e nada mais, independentemente do lugar. O Cristo vivo, no curto período entre vocês, disse que quem quisesse o encontrar bastava levantar uma pedra ou lascar uma madeira, pois lá ele estaria... Pena que tão poucos entenderam e seguiram realmente tal simplíssimo ensinamento. E o que aconteceu foi que a fé entre os homens se tornou uma confusa equação matemática, onde as "notas pelo aproveitamento" são dadas por outros homens, muitos desses com terríveis desvios de conduta bem ocultados...
Mais um período de silêncio seguiu-se e mais uma vez a sábia voz, direta como antes, citou exemplos em mínimos detalhes, como quem sabia realmente tratar do assunto em evidência:
- Você ia a todas as missas e novenas possíveis, mas ao sair delas blasfemava contra quem não partilhava das mesmas idéias e dedicava horas e horas do seu dia tripudiando pelo telefone em meio ao seu próprio círculo religioso. Era a dona da verdade e julgava com severidade os supostamente menos instruídos em relação ao Deus que ali haviam te personificado... Grande erro, mulher, pois somente o próprio Deus é o dono da verdade. Além do que julgar sempre foi, é e será um gravíssimo erro. Ainda mais quando opiniões pessoais, quaisquer que sejam, falam mais alto que o bom senso.
- Você pregava o amor entre os outros frequentadores do seu templo, para passar uma boa imagem sua entre eles mesmos, porém não o exercitava na prática em mais nenhum lugar além das quatro paredes santas. Nem mesmo com sua família o fazia como deveria e com imparcialidade. E quem não é capaz de amar os próprios insubstituíveis laços sanguíneos, certamente não é capaz de amar mais nada ou ninguém. O amor sincero não deve ser dito, ele tem de ser vivido. E vivido de forma generalizada em todos os momentos e cantos, com todos e em igual teor. Um amor fracionado, direcionado ou carregado de interesses jamais será um verdadeiro amor.
- Apesar da privilegiada situação social, você estava sempre amarga consigo mesma e constantemente maldizendo seus dias sem motivos lógicos. Isso também era uma grande contradição. Qualquer pequeno detalhe ruim, comum nos decorreres períodos, era invariável motivo para gritos, desequilíbrios e duras agressões verbais para quem quer que fosse. A vida é simples... Quem ama de verdade perdoa tudo e todos sem exceções, e quem perdoa não tem tempo para mau humor inútil e ódio nada construtivo. Essa é uma das básicas regras para a felicidade, pena que tão pouco seguida...
- Você desenvolveu uma idolatria quase doentia por tudo ligado somente a padres, bispos e outros cargos de poder na complexa hierarquia da sua doutrina. A partir de então nunca mais valorizou nem respeitou nada que não fizesse parte de tal casta, por maior explícito valor que tivesse. Suas palavras constantes passaram a "endeusar esses homens", de necessidades diárias como todos os outros "homens normais". Na verdade, mulher, nenhum deles tem mais proximidade com o Deus único que qualquer um dos muitos andarilhos jogados nas calçadas. A realidade é bem diferente da qual se passa na cabeça egoísta só deles mesmos. Perante o criador somos todos iguais. Todos, até mesmo os mais "poderosos" que erroneamente imaginam conhecê-lo mais de perto...
- Quanto mais você leu, instruiu-se e estudou sobre a famosa "teologia", mais se tornou uma inflexível proprietária de frases feitas. Quanto mais julgava saber, mais desrespeitava opiniões alheias referentes a diferentes crenças e caminhos mais simples de fé. Só se esquecia nos momentos de fervorosos discursos egocêntricos que, em incontáveis casos, a "simplicidade" é a única certeza evidente e coerente em tudo, e quem é simples não impõe nada nunca. Lideranças verdadeiras acontecem naturalmente, sem a necessidade de gritos estridentes ou estúpidas demonstrações de força.
- O mais triste nas tantas contradições diariamente cometidas é que Cristo em pessoa, quando entre vocês, de nada precisou além das suas incomparáveis palavras e do seu amor infinito... Peregrinou humilde e incansavelmente a pé, descalço, sem dinheiro algum e enrolado em poucos trapos... Não necessitou de construções faraônicas ou templos luxuosos para arrebanhar os irmãos e lhes presentear com a bondade máxima... Nem mesmo pequenos detalhes como imagens ou rosários lhes foram imprescindíveis para expor a pureza do seu coração... Pena que tais maravilhosos exemplos se perderam com o tempo e com a distorção de tudo por ele ensinado. Distorção elaborada por... homens!
Após um breve espaço de novo silêncio a pobre mulher, sem mais ter como sequer tentar argumentação, foi bem direta:
- Quer dizer então que eu vou para o inferno por ter acreditado em mentiras?
- Não! Não vai! Seus erros não foram de tal gravidade a ponto de merecer um destino assim. - rebateu de imediato a iluminada voz. - Na verdade o mundo dos homens há muito se tornou uma imensa vitrine. Vocês são irremediáveis e compulsivos escravos do consumismo. E a fé é somente mais um dos produtos diariamente expostos. Diante disso, sensatos são os que fazem boas compras, sábios são os que aprendem cedo a olhar através dos sujos pensamentos dos gananciosos mercadores e puros são os poucos que vencem as tentações e caminham leves por entre os traiçoeiros corredores dos mercados... - continuou com a breve explicação.
- Mesmo porque o que vocês chamam de inferno não é propriamente como suas pinturas molduram. Para muitos ele não passa somente de repetição... - prosseguiu com firmeza.
- Você se crucificou só externamente, como penitência, em uma inexistente cruz comprada num desses mercados, e isso somente te guiou até lugar nenhum. Suas palavras e seus atos jamais caminharam de mãos dadas e, por tal, terá de rever o significado de amor, de humildade e principalmente de... fé. Por mais que tenha sido involuntário, ninguém consegue ludibriar o Deus que tudo sabe, tudo vê e tudo ouve. - completou o auxiliador, calando-se por total em seguida.
Nesse momento eu comecei minha serena aproximação. Após tantos "anos" de experiência já conhecia as providências posteriores a serem tomadas, iguais as de outras ocasiões.
Esse caso foi somente mais um entre incontáveis que eu participara, referente a inversão de valores divinos cometidos por quem mais se achava correto ou correta. Lembro-me bem de algo parecido, horrível e de proporções assustadoras, mas onde o nome de Deus fora igualmente mau interpretado e usado de forma absurda. Aconteceu em 1692, na América do Norte, precisamente num pequeno povoado chamado Salém. Mais de vinte pessoas, quase todas mulheres, foram acusadas de ocultismo, julgadas sob critérios extremamente desconectos, condenadas às pressas e executadas na fogueira. Os responsáveis por tamanho erro foram autoridades religiosas locais e várias beatas que, em "nome de Deus", decidiram pelo fim de várias existências. O caso ficou conhecido entre vocês como "As Bruxas de Salém". Porém, eu melhor que ninguém posso afirmar que verdadeiramente deveria ter se chamado "As Beatas de Salém", em virtude da correta ótica para o justo lado. Mas, infelizmente, justiça no plano material poucas vezes se fez e faz presente... Sim, eu melhor que ninguém posso afirmar isso pois eu mesmo, pessoalmente, conduzi cada uma de todas as almas envolvidas na situação para os devidos e merecidos destinos. E, por tal triste tarefa, sei bem quem foram os verdadeiros "condenados" em mais essa negra passagem da história, onde a absurda certeza da santidade particular e pessoal só fez por tornar inatingível o que tão perto sempre se encontra e o que tão simples é.
Algum tempo depois, sob o nosso conceito de tempo, eu a vi novamente entre os homens. Era uma suja bebê com roupinhas rasgadas, no colo de uma imunda, maltrapilha e esquelética mulher. "As duas" estavam pedindo esmolas, coincidentemente sob a marquise de uma imensa "igreja"... Porém, nenhum dos muitos fervorosos fiéis que saiam do templo orgulhosos da própria fé sequer lhes dava atenção. Nem mesmo reparavam na presença humilde das sub-humanas vidas ali jogadas no chão frio. Uma triste inversão de situações, mas a única forma dela ver por si mesma, através do tempo e dos fatos, que nem tudo que parece ter valor é realmente valoroso. Que nem todos os que se figuram como bons santos são propriamente o que suas vestes externas mostram. Não há hóstia dominical que mostre e ilumine o caminho de quem não estende a mão nem mesmo para uma inocente criança faminta. Essa é uma das piores contradições entre lindas palavras e atos vagos, tão comuns no dia-a-dia. Fé sem obra não resulta no que se imagina e o horizonte nem sempre se torna mais próximo para quem "somente" se ajoelha...
Aliás, para os que não me conhecem, apresento-me agora... Na verdade sou chamado por vários nomes e referências entre vocês, homens. Mas, particularmente, o que eu mesmo mais gosto e acho apropriado é o termo "Barqueiro". Soa bem com minhas tarefas...
A propósito, sinceramente espero não ver nenhum de vocês em breve... Melhor, rezo para não vê-los nunca! Pois quem seguir o simples rumo certo jamais precisará da intervenção de intermediário algum para chegar onde merece, muito menos da minha. Almas boas, leves e realmente puras seguem sozinhas o cristalino "rumo certo" e não necessitam de ... "repetição".